É
bastante provável que o Carnaval seja a festa popular profana mais comemorada
no Brasil. Festeja-se o Carnaval de maneiras bastante diferentes de acordo com
a região. Mas há um fato que atinge a grande maioria das pessoas, com acesso à
televisão, quando o assunto é Carnaval: os corpos nus ou quase nus das
mulheres.
A
reflexão sobre os corpos e o seu uso como produto pela mídia, principalmente
televisiva, é um conteúdo que deve ser debatido nas aulas de Educação Física.
Um documento governamental de orientação aos professores “Parâmetros
Curriculares Nacionais”, voltado a essa área, aponta como um dos objetivos a
serem atingidos pelo professor de Educação Física com alunos do ensino
fundamental é a leitura crítica de modelos de corpo que são transformados em
produtos pela mídia televisiva. E, se por um lado a leitura crítica de uma
estética corporal transformada em padrão já é um tema bastante debatido no
campo acadêmico da Educação Física, por outro lado, isso não significa que o
professor o faça em sala de aula, elemento que justifica o tema aqui proposto.
Desde
o Movimento Feminista, que teve seu auge na década de 60, que a mulher brasileira
vem integrando um quadro bastante contraditório: se por um lado ela pretende
posição profissional e independência financeira, por outro, ela precisa se
mostrar feminina, dócil e, porque não, sensual. A sensualidade é um elemento
chave para a mulher, porque se trata de uma manifestação de poder sobre os
homens e até sobre outras mulheres. E é isso o que leva muitas e muitas
mulheres à academia, às clínicas de cirurgia plástica, aos salões de beleza e à
procura de dietas milagrosas. Nessa lógica, o corpo é o foco da sensualidade e,
provavelmente por isso, também é foco de poder.
Assistir
aos desfiles das escolas de samba pela televisão faz com que o nosso olhar
sobre o carnaval fique bastante restrito sobre esse tipo de festividade. Há
muitos outros festejos de carnaval no Brasil, que se focam muito mais em
diversão do que em produção de capital e competição. No entanto, é esse o tipo
de festa que é vendido pela mídia televisiva para o Brasil e para o mundo.
Nesse contexto, o elemento de marketing para esse tipo de venda é o corpo feminino. Não à toa, muitas mulheres participam dos desfiles, mas as que têm sua imagem transmitida pela televisão são aquelas que têm o seu corpo à mostra. São mulheres que submetem seus corpos às intensas privações alimentares, a exercícios físicos exaustivos e a cirurgias plásticas quase anuais, a fim de que o seu corpo seja foco de atenção do Carnaval.
É bom
que se esclareça que o nudismo não é uma prática discriminatória, o que se
acredita ser discriminável é a venda dos corpos enquanto produto. São esses
corpos que atraem turistas que fazem os hotéis lucrarem, restaurantes caros
lucrarem e boutiques caras lucrarem. Chamo de corpos e não de mulheres, porque
o corpo torna-se uma coisa vendável, quase desumanizada. O curioso é que são
esses corpos que pouco lucram.
Então,
torna-se lógica a pergunta: o que ganham esses corpos? A princípio, a única
resposta lógica seria poder. Poder no sentido proposto pelo filósofo Michel
Foucault: em que se trata de submissão do outro perante a si, e que pode se
apresentar nas mais íntimas relações interpessoais. Nesse caso, o corpo “mais
bonito” do Carnaval ganha todos os olhares, e esses olhares significam a
valorização desse corpo. Essa valorização, que nesse caso pode ser chamada
ingenuamente de “autoestima” resulta em sensação de poder. Um poder que
desaparece logo que se deixa o desfile, mas que serve como produto para a
lucratividade de um sistema turístico de ética duvidosa.
Por Paula Rondinelli

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